Por Dolores Teixeira de Brito, Bárbara Cardozo, Renan Magalhães, Victoria Lacasa, Isabela Tramansoli

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O que dizem especialistas sobre valorização do servidor público?
O servidor e o público

O que dizem especialistas sobre valorização do servidor público?

Dando continuidade à discussão do texto anterior sobre o conceito de valorização do servidor público no Brasil, entrevistamos sete especialistas, entre eles pesquisadores, consultores e servidores públicos que atuam na área de pessoas ou áreas afins à gestão de pessoas, com perguntas relacionadas à valorização do servidor público. As entrevistas seguiram um roteiro semiestruturado que explorou temas como: o que caracteriza o trabalho no serviço público, o que se entende por valorização do servidor público, a relação do reconhecimento da sociedade com a valorização, a carência de pesquisas sobre o tema, os desafios a ele relacionados, assim como sugestões para temas de pesquisa sobre o assunto. Para organizar os dados das entrevistas, optou-se pela elaboração de um quadro, apontando convergências e divergências sobre os aspectos abordados, assim como questões para reflexão. 

A opinião dos diferentes entrevistados convergiu em vários aspectos. Para os especialistas, a valorização do servidor público engloba aspectos relacionados à carreira, qualidade de vida no trabalho e condições de trabalho (infraestrutura e gestão), que permitam que seu trabalho gere impactos positivos para a sociedade. 

A dificuldade de encontrar pesquisas sobre o tema, de acordo com os especialistas, pode estar relacionada a questões acadêmicas: não haver interesse ou incentivo em estudar o tema; nomenclatura, pois questões relacionadas a esse tema podem estar sendo tratadas com outra nomenclatura, por exemplo, na literatura de Psicologia ou do trabalho; diferentes aspectos do tema já são tratados no âmbito de outras áreas, como por exemplo na literatura de gestão de pessoas no setor privado, em temas relacionados a sindicatos e na literatura de motivação para o serviço público. 

O servidor e o público

Sobre a relação com a sociedade, todos concordaram que, com algumas exceções, a imagem da sociedade sobre o servidor público é muito negativa, seja porque o serviço público não atende aos anseios da população ou por esta, muitas vezes, não olhar para o serviço público sob uma perspectiva histórica, por exemplo: ressaltar as falhas do SUS sem lembrar como era quando o país não dispunha  de um sistema de saúde universal, seja porque a imprensa não contribui para um debate qualificado sobre os reais desafios do serviço público, ou ainda porque alguns dos problemas existentes não são resolvidos ao longo dos anos. Por outro lado, surgiu também como dificuldade na relação entre servidor público e sociedade o fato de esta não saber cobrar por bons serviços públicos e, por vezes, agir de forma clientelista. 

Quando perguntados sobre como deveria ser um programa ou uma política de valorização do servidor público, as respostas apontaram para questões de desenvolvimento de pessoas, qualidade de vida no trabalho, ajustes nas carreiras, melhorias da gestão de equipes, o papel das lideranças e a ênfase no sentido do serviço público. Em relação a esse ponto, as opiniões divergiram sobre a abordagem do assunto. Para alguns, não faz sentido se falar em valorização dos servidores, e sim em melhoria da gestão pública como um todo, pois uma boa gestão pública promove as condições adequadas para o bom desempenho do trabalho. Esse novo contexto permitiria a entrega de melhores serviços públicos e geraria o sentimento de valorização entre os servidores. Consequentemente, serviços públicos de mais qualidade contribuiriam para melhorar a percepção da sociedade sobre os servidores públicos.

Quadro com o resumo dos resultados das entrevistas com especialistas

Quadro com o resumo dos resultados das entrevistas com especialistas
Fonte: Elaboração própria com base nas entrevistas com especialistas em Administração Pública e/ou gestão de pessoas (2020).  

As perspectivas e os questionamentos apontados pelos especialistas entrevistados na pesquisa, e condensados no quadro acima, trazem para o dia a dia do serviço público temas que são encontrados na literatura estudada sobre motivação, reconhecimento e valorização de profissionais públicos, numa tentativa de aliar teoria e prática. Assim, no próximo texto desta série, aprofundaremos esse tema a partir da voz de quem efetivamente opera as políticas públicas brasileiras: os próprios servidores públicos. A partir de seus lugares de fala, veremos como a valorização – ou não valorização – de suas atuações profissionais afetam não somente suas vidas de forma individualizada, como também impactam sobremaneira a prestação dos serviços públicos em nosso país. Até lá!

Esta nota é de responsabilidade dos respectivos autores e não traduz necessariamente a opinião da República.org nem das instituições às quais os autores estão vinculados.

Dolores Teixeira de Brito
Doutoranda em Desenvolvimento Internacional (Estudos Globais) na Universidade de Sussex. Mestre em Administração pela FGV Ebape. Formada pela Academia de Gestão da Governança Global (MGG Academy), do Instituto de Desenvolvimento Alemão (DIE) e psicóloga formada pelo UniCeub. Servidora pública federal desde 2008.

Bárbara Cardozo
Graduada em Administração na Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (FGV Ebape). Já atuou na área de comunicação e atualmente trabalha como Analista de Projetos na República.org, sendo responsável por apoiar iniciativas realizadas em conjunto com as Fundações Brava, Lemann e Instituto Humanize, além de colaborar nas frentes de cultura de reconhecimento e arte no setor público na organização.

Renan Magalhães
Mestrando em Políticas Públicas pela Hertie School of Governance, em Berlim. Especialista em Gestão de Projetos Culturais pelo Celacc/USP e bacharel em Políticas Públicas pela UFABC. Foi servidor público em diferentes órgãos da administração direta e indireta.

Victoria Lacasa
Mestre em Administração Pública – Desenvolvimento Político e Econômico pela Universidade de Columbia. Bacharel e mestre em Economia pela Universidade Torcuato di Tella. Trabalhou como consultora para o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), como assessora na Secretaría de Comercio de la Nación na Argentina. Atuou como associada de pesquisa da organização Innovations for Poverty Action (IPA).

Isabella Tramansoni
Gestora Pública formada pela Universidade de São Paulo (USP) e mestranda em Planejamento Urbano e Regional pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Isabela Tramansoli atua há quase 10 anos em projetos de melhoria da gestão pública, com propósito de gerar transformação social e promoção de uma sociedade democrática e inclusiva.