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Publicado em 23 de março de 2020

Por Monalyza Alves

Começo este artigo pedindo a benção e licença aos velhos e os mais novos, conforme a ancestralidade nos ensina. Àsé! Escrever sobre "O que é ser uma liderança feminina no setor público?" na perspectiva da ascensão da Mulher Negra e os desafios para a efetiva promoção da Igualdade Racial é um desafio. Entretanto, farei o exercício de pontuar aspectos relevantes, e sobretudo de “escurecer” que toda mulher negra é uma líder, e por isso, a não ascensão da mulher negra é uma lástima coletiva. 

Todos sabemos que em nosso país passamos por mais de 300 anos de escravidão. Portanto, pensar que hoje 132 anos após a “abolição”, teríamos alinhado as assimetrias que são impostas às mulheres e homens negros, seria no mínimo ilusório. O Estado Brasileiro em sua construção quanto nação, negou veementemente o lugar das mulheres e dos homens negros. Foram anos (que ainda persistem) de opressão e descaso. Ao entender o abismo, de 115 anos, entre a Lei Áurea e a institucionalização da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial - SEPPIR, compreendemos que ainda há muito o que ser feito!

Fazer esta análise no mês de março onde duas datas nos chamam a atenção - os dias 08  e o 21. Se faz importante destacar que a luta do 08 de março por mulheres brancas, em busca de melhores condições de trabalho, não englobava as mulheres negras que não tinham sequer o direito de ser sujeito. A segunda data, Dia Internacional contra a Discriminação Racial, surge para que não nos esqueçamos de um massacre, ocorrido durante uma manifestação pacífica pelo direito de ir e vir.

Falar sobre promoção da Igualdade Racial no Brasil, é falar sobre correção, inclusão, igualdade de direitos e oportunidades. Falar da ascensão das mulheres negras nos espaços de liderança é Promoção da Igualdade Racial. Ambas precisam ser entendidas e aplicadas pelos mais diferentes setores do serviço público e privado.

Não obstante, avanços como a Lei de Cotas para o acesso ao Serviço Público (Lei nº 12.990/2014), e às universidades (Lei nº 12.711/2012), são iniciativas que marcam o pontapé inicial.  Os números apresentados pelo IBGE, evidenciam o abismo entre homens e mulheres. Mulheres Negras ganham 44,4% menos do que homens brancos. Nas posições de liderança a população preta representa 29,9% em relação ao brancos  - 68,6%, com o mesmo perfil de escolaridade. 

No que tange ao serviço público federal, segundo dados do último relatório do Sistema de Gestão de Pessoas do Governo Federal (SIGEPE), podemos aferir os números separados por gênero, idade, seguridade social e escolaridade. Entretanto não consta no relatório o quesito raça/cor e nem sua interseção com as demais questões. Há não informação, é um exemplo da invisibilidade dada às questões relacionadas ao quesito raça/cor. Tal ação impede aos interessados de identificar onde estão as negras e negros nos altos escalões do serviço público. 

Ao analisarmos a estrutura do Governo do Estado do Rio de Janeiro, das 26 secretarias de Estado apenas 03 são comandadas por Mulheres, todas brancas. Segundo dados do Caderno de Recursos Humanos da GESPERJ, homens representam 108.447 mil servidores e mulheres representam 81.224 mil servidoras. E assim, como o Boletim do Governo Federal não são apresentados os dados referentes ao quesito raça/cor.

Diante dos fatos,  respondendo a questão O que é ser uma liderança feminina no setor público?”, compartilho da mesma reflexão abordada por Sueli Carneiro: “de que mulher estamos falando?”. Ao falarmos das mulheres negras, nos encontramos na base do serviço público, somos: professoras, enfermeiras, copeiras, garis, merendeiras, assessoras e assistentes. Não vejo demérito nisso, mas sempre me perguntei: “Até quando?”. Fato é que estamos cada dia mais especializadas e competentes no que fazemos, porém, não estamos em posição de liderança. E nos casos de ascensão, temos que lidar com as atribuições que nossos cargos impõem e lidar com intervenções e intercorrências que nos engessam. 

Por fim, é válido ressaltar que estamos invisibilizadas e não paradas! Mesmo em cargos de base somos lideranças. Sabe por quê? Sempre fomos líderes. Uma mulher negra quando se mexe/ou se levanta, move toda a estrutura, nos ensinou Angela Davis. Somos líderes nos nossos Ilê’s, comunidades, bairros, famílias. Nossas realidades de luta, nos formaram em mediadoras de conflito, diplomadas  e guerreiras!

Iniciativas como a da Republica.org através da campanha "Onde estão os negros no serviço público?" são exemplos que nos ajudam a vislumbrar uma ascensão e reconhecimento de nós mulheres negras como lideranças. Concluo, sugerindo que para melhorar o cenário precisamos que as ações afirmativas sejam encaradas como transformadoras. Uma empresa, seja ela pública ou privada, que acredita na promoção da igualdade racial será gerida de forma eficiente e produzirá maiores benefícios para seu público e população. E com isso, mesmo com um passado enraizado na dor, nós MULHERES NEGRAS NOS LEVANTAREMOS!


ANGELOU, Maya. “Still I Rise” (Ainda assim eu me levanto)”. Portal Geledés, 2018. Disponível clicando aqui. Acesso em: 20 de março de 2020. Inspirado no Poema “Still I Rise” (Ainda assim eu me levanto) da Drª Maya Angelou. Maya Angelou, figura extraordinária das letras norte-americanas, foi porta-voz dos anseios e da revolta dos negros. Amiga de Martin Luther King e de Malcolm X, a vida inteira dedicou-se à militância pelos direitos civis de seu povo. Nascendo em Saint Louis – Missouri, partindo de uma infância miserável e cheia de tropeços no Sul profundo, educou-se, para consagrar-se a duas causas: a seu povo e à poesia. Viajou pelo país fazendo campanhas onde fosse necessário; posteriormente percorreria também a África, sempre denunciando a injustiça. Artista polivalente, fez teatro, cinema, televisão, dança. Autora de livros de memórias e assessora de presidentes, soube empunhar a poesia como arma de luta pela emancipação. 

Desigualdades Sociais por Cor e Raça no Brasil. In Estudos e Pesquisas Informação Demográfica e Socioeconômica n.41. IBGE, 2019. Disponível clicando aqui. Acesso em: 18 de mar.2020.

BRASIL. Boletim Estatístico de Pessoal e Informações Organizacionais / Ministério do Planejamento, Desenvolvimento e Gestão. Secretaria de Gestão de Pessoas e Relações do Trabalho no Serviço Público Vol.21 n.249 (Jan 2017) - Brasília: MP, 1996 –– V. 01. Disponível clicando aqui. Acesso em: 18 de março de 2020.

CADERNO DE RECURSOS HUMANOS. Gestão de Pessoas do Estado do Rio de Janeiro, Jan.2020. Disponível clicando aqui. Acesso em: 20 de mar.2020.

CARNEIRO, Sueli. “Enegrecer o Feminismo: A Situação da Mulher Negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Portal Geledés, 2011. Disponível clicando aqui. Acesso em: 20 de março de 2020.

Àsé - Termo iorubá que significa "energia", "poder", "força" pode se referir tanto aos assentamentos de orixás que ficam nos pejis (altares de candomblé) quanto à força mágica que sustenta os terreiros de candomblé.

Ilê - casa de candomblé; o terreiro como um todo

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Monalyza Alves, 36 anos é mulher negra. Especialista em Política Pública em Direitos Humanos pelo IPPDH – Instituto de Políticas Públicas e Direitos Humanos do MERCOSUL, Produtora Cultural, graduanda em História pela Universidade Veiga de Almeida. De 2013 a 2020 atuou na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. No último ano foi Superintendente de Promoção da Igualdade Racial, setor onde de 2008 a 2011 foi assessora.  Dos projetos que coordenou merece destaque a os projetos Justiça Comunitária e Casa de Direitos (Cidade de Deus). Foi conselheira do Conselho Estadual de Segurança Pública – CONSPERJ nos anos de 2015-2016 e Vice-Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Indígenas - CEDIND. Em 2019, foi selecionada, entre 1000 mulheres do Brasil, para participar do “Programa Marielle Franco de Aceleração do Desenvolvimento de Lideranças Femininas Negras”, realizado pelo Fundo Baobá em parceria com a Ford Foundation, Open Society, Foundations, Instituto Ibirapitanga e a W.K. Kellogg Foundation.


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