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Publicado em 15 de outubro de 2020

Artigo: Vivian Barros - Profissional Pública e Líder da Rede Republica

"As artes levam-nos à dimensão estética da existência e conforme o adágio que diz que a natureza imita a obra de arte elas nos ensinam a ver o mundo esteticamente. Trata-se, enfim, de demonstrar que, em toda grande obra, de literatura, de cinema, de poesia, de música, de pintura, de escultura, há um pensamento profundo sobre a condição humana.“ (MORIN, 2000ª, p. 45).

Sempre fui cinéfila confessa e costumo me apropriar dos argumentos e mitos literários das tramas assistidas para melhor desenvolver algumas questões e ou dilemas do cotidiano. Recentemente, tive a oportunidade de ser aluna em curso em que um dos professores incorporou na bibliografia do plano de curso de sua disciplina – liderança – uma lista de filmes, documentários que exemplificavam os fundamentos teórico-conceituais postos nas aulas e colaboravam para nosso entendimento do path dependence, de como somos dependentes da trajetória e como nossos valores e instituições são construídos ao longo do tempo.

O primeiro filme indicado, O Último Samurai, de Edward Zwick (2003), inspirado na Rebelião Satsuma, liderada por Saigō Takamori, não era inédito para a maioria dos colegas da turma, bem como para mim, mas com a leitura recomenda e com os aportes teóricos do professor, a narrativa apresentada ganhou sentido e me ajudou a elaborar melhor algumas questões sobre ética e valores, sobretudo, no tocante à minha pratica profissional, como professora e liderança pública.

No Japão de 1876, o capitão Nathan Algren, um capitão ianque, herói da Guerra Civil, que tem a missão de treinar as tropas japonesas para com elas combater os samurais que lutavam contra os planos de "modernização" do governo Japonês, encontra um cenário de crise ética em que o imperador tenta conciliar o antigo e o moderno, de modo a trazer as benesses do ocidente para seu povo, sem perder a sabedoria dos antepassados ocidentais, mas junto a este advento não percebe o esforço da elite em institucionalizar a distribuição desigual das oportunidades em relação à população. O capitão ianque demonstra um crescente descontentamento em servir forças políticas que defendem interesses unilaterais que primam pela manutenção da desigualdade social e em nome de explorar oportunidades econômicas desrespeitam as vidas e as culturas dos povos que têm contato, num ímpeto de domínio pela força ou por estratégias escusas, sem o menor respeito, no sentido kantiano.

É neste contexto de ameaça à “alma do Japão” que o capitão conhece Katsumoto, um líder Samurai, descendente de um punhado de homens fortes, que vive como poucos, seguindo um código de conduta que está desaparecendo no Japão moderno, em que a honra, aliada à verdade e à justiça vale mais que a vida. Katsumoto tenta manter viva essa ética, mas é vencido pelos apelos da modernidade estrangeira que tanto encantavam o imperador, de maneira que não lhe restou outra opção a não ser a guerra com seus compatriotas que apoiavam o império, na tentativa de manter o Japão a salvo dos ianques.

Num primeiro confronto, os dois mestres na arte do combate, com diferentes visões de mundo e ética, tiveram seus destinos entrelaçados após o capitão ser ferido na batalha e ser levado por Katsumoto como prisioneiro de guerra. Esta aproximação involuntária propicia a ambos episódios cotidianos que os levam a refletir o quanto são diferentes culturalmente, mas como seus valores no tocante ao respeito à vida e à justiça são similares. Nathan e Katsumoto chegam a conclusão de que é possível aliar o antigo ao moderno sem que a honra seja manchada. Com o mestre Samurai e os demais moradores do seu vilarejo, o capitão Nathan encontrou a paz e um bom propósito para sua vida, sem conflitos de consciência, violência e ou mentiras, como as vividas em suas memórias. Um lugar que possui pessoas e uma cultura que aprendeu a amar, segundo ele mesmo proferiu antes de partir para a derradeira batalha. Muitos não sobreviveram a esta guerra, nem o próprio mestre samurai, mas tiveram uma boa hora, pois agiram não em nome de suas escolhas particulares, mas pela honra de seu povo, da verdade de sua história. E por todo este testemunho foram honrados pelo imperador, quando enfim rejeita a proposta de acordo com os Estados Unidos e destitui do poder, inclusive de suas posses, as lideranças japonesas que conspiravam.

A exemplo do cenário narrado no filme, estamos num contexto de crises conjugadas as quais enfrentamos no cotidiano, seja na esfera pública, seja na esfera privada e estas envolvem bem mais a educação, a ética e os valores sociais, do que questões ligadas à saúde e economia. Encontramos na trama do Último Samurai uma reflexão para os dilemas atuais e para os indivíduos que estão em posição de liderança ou têm alguma representação política, que muito podem contribuir para o entendimento das diferenças e mudanças contextuais advindas neste contexto. No filme os personagens aprenderam pela dor que há caminhos para o desenvolvimento econômico, sem a manutenção e ou promoção da desigualdade, no sentido de oportunizar a todos o acesso à cultura, à educação, aos bens de consumo e serviços. Como o imperador japonês apreendeu, é possível um país ser forte independente e moderno sem abrir mão de observar sua construção histórica e valores éticos constituídos ao longo de sua trajetória.

Todo esse aprendizado do imperador se deu a partir da intencionalidade de um indivíduo, o seu mestre, o seu professor Katsumoto, que busca em sua coerência e ética honrar sua posição de líder, dos seus e de si próprio, na defesa dos valores e da justiça do seu povo frente às mudanças socioculturais impostas. Ao menos no discurso, é consenso entre as lideranças mundiais que a Educação é a solução para os problemas do século XXI e por meio dela que conseguiremos acompanhar as mudanças socioculturais impostas pela revolução tecnológica e pandêmica. Mas como no Japão de 1876, os nossos professores são desafiados diariamente a provar o importante papel que desempenham na formação de nossa juventude e que não abrem mão de desempenhá-lo com compromisso ético e presença educativa, como verdadeiros Samurais. Tal analogia não se deve pela galhardia na luta pela educação, puramente, mas pela insistência no objetivo maior da educação, como política pública, a formação plena do cidadão, visando seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para enfrentar os desafios contemporâneos, sem perder de vistas os valores e princípios estruturantes ao bem comum.

A Educação, de qualidade, é direto de todos, portanto, dever das lideranças públicas e instituições formais garanti-la à nação, em regime de colaboração entre Estados e Municípios como preconiza a Constituição Nacional e a LDB- Lei de diretrizes e bases. No entanto, pelo que se lê e pelo que se percebe da opinião pública essa responsabilidade recai somente nos ombros dos professores. Logo eles que enfrentam condições de trabalho cada vez mais precarizadas e pouco incentivo para continuarem sua formação, lecionando cada vez mais no limite de suas potencialidades. Frente ao novo paradigma, adequado à realidade social e educacional do Século 21, na busca do desenvolvimento de competências específicas, vinculadas aos processos de ensinar e de aprender no contexto de transformação digital, em um mundo imerso e dependente da cibercultura e devastado pela Pandemia da COVID-19 os professores estão adoecendo.

Urge cuidar do professor, se quisermos que cuide do aluno. Significa dizer que não basta apresentar-lhe toda argumentação científica disponível. É sobretudo imprescindível atingir sua alma, emoção, crenças e valores. Não se trata de mudar de camisa. Trata-se de mudar de cultura e isto é empreitada hercúlea, aberta e incerta. No fundo, não faz sentido exigir de alguém desempenhos inauditos, se não garantimos mínimas condições de trabalho. Demo (2006, p.88)

É preciso cuidar do professor para que não esmoreça em seu propósito e tenhamos cuidada a aprendizagem dos nossos alunos. Não é apenas uma questão de vitimar os professores, mas entender que toda essa pressão para que se adequem a este “instrucionismo inovador” vem reforçar os desafios pedagógicos pré-existentes, às ausências estruturais do contexto educacional, culminando na desmotivação dos docentes, tendo como reflexo o desprestígio social da profissão. Para que essa realidade deixe de ser uma empreitada hercúlea, aberta e incerta precisamos de mais lideranças políticas como o imperador japonês que pela honra de seu povo, da verdade de sua história buscam conciliar mudanças contextuais e valorizam seus samurais e seus propósitos.


Referência Bibliográfica:
DEMO, Pedro. Ser professor é cuidar que o aluno aprenda. Porto Alegre: Artmed, 2004.
SANDEL, Michael. O que importa é o Motivo. Em: Justiça. O que é fazer a coisa certa. Cap. 5 (2009)

Vivian Barros Educadora há cerca de 30 anos, com formação inicial para professores, já atuou na alfabetização de crianças e adultos. Há 13 anos na Rede Estadual de Ensino do Rio de janeiro, coordenou o Ensino Fundamental e o Médio, bem como a área de Articulação e Elaboração de Projetos Educacionais Inovadores. Atualmente é Coordenadora de Formação na Superintendência de Desenvolvimento de Pessoas da SEEDUC-RJ.


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