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Publicado em 21 de outubro de 2020

Por Jana Libman e Paola Figueiredo

“O autocuidado é um direito e não um privilégio”. 

Laura Baena e Paola Figueiredo 

Silêncio. Momento de escuta. Quietude interna e externa para aumentar o grau de autopercepção. Momento de autorreconhecimento e autocuidado. Parada estratégica para repor as energias, colocar os pensamentos em ordem, identificar, acolher e ressignificar sentimentos. Perceber como está o corpo, fazer um alongamento e uma respiração profunda. Permitir-se um breve retrospecto das últimas 24 horas, avaliar o que funcionou e as oportunidades de melhoria, identificar em que momentos do dia a disposição esteve no auge. Ações que podem ser realizadas em menos de cinco minutos e que, com o tempo, nos conecta com a nossa essência, com nosso eu mais profundo e criativo, onde encontramos as respostas para as perguntas mais relevantes da nossa vida e onde nos fortalecemos. 

Breves cinco minutos que parecem estar sempre num tempo futuro, no “quando o trabalho tiver acabado, as tarefas de casa concluídas, os filhos cuidados, a ginástica feita, os compromissos sociais atendidos, as férias chegarem ou a medicina dizer que é hora de parar”. E é nesse futuro incerto que concentramos as esperanças de encontrar um equilíbrio que deveria ser a lógica do presente, a demanda imediata, a busca diária. 

Para as mulheres, esse é um grande desafio: com as bonecas e brincadeiras de casinha, aprendemos a cuidar dos filhos, da casa, da família; com os jogos interativos, aprendemos a competir e superar os outros; nas aulas, aprendemos que tirar notas boas nos tornavam boas meninas, e era uma postura mais desejável que o questionamento; na rotina, seguimos aceitando as coisas como são, evitando o diálogo aberto, o debate e o bom conflito; no corpo, assumimos padrões estéticos que não nos representavam só para agradar os outros; no trabalho e na vida, nos deparamos com o absurdo de concorrer umas com as outras sem nem sabermos o porquê, presas a vários outras violências diárias que de tão comuns pareciam “normais” (assédio, interrupção de fala, piadas sexistas). 

Assumimos que apresentar resultados é fazer com as próprias mãos, e na hora de gerir, temos dificuldade para delegar, nos sobrecarregando e exaurindo nossa mente, nosso corpo, nossa energia e deixando as nossas emoções em frangalhos. Neste mês do “Outubro Rosa” precisamos entender o que significa, de fato, este movimento que nos impulsiona a olharmos para nós mesmas e, irmos além, como gestoras públicas.

Em que momento, mulheres, aprendemos sobre o autocuidado?

Se não foi no passado, que seja hoje, que seja logo, que seja urgente. Por um motivo simples: para cuidar, gerir, engajar, temos que fazer isso primeiro em nossas vidas. Nada mais inspirador e motivador que uma mulher, principalmente se é líder, conhecer seus valores pessoais e agir de acordo com eles. Mas para identificá-los, antes é preciso conhecer-se, é preciso honrar e assumir os próprios talentos e forças, alinhar as ações ao propósito pessoal, saber qual o legado que se quer deixar nas inúmeras interações, bem como os próprios limites. E, para isso, é crucial que, no meio da rotina, das inúmeras tarefas, das demandas que podem surgir, tenhamos um tempo para nos escutar, para identificar o que sabemos, queremos e podemos, para estudar e pedir ajuda quando necessário e, a partir daí, nos fortalecermos para os desafios – surpreendentes, cada vez maiores e mais complexos – que podem surgir, não só num futuro distante, mas aqui e agora. 

Em vários momentos no papel de gestora, a mulher corre o risco de assumir uma postura maternal nas suas relações de trabalho, tentar fazer várias tarefas ao mesmo tempo, dizer sim para tudo que é solicitado. Essas atitudes geram resultado? Claro, mas será que está relacionado ao que é prioritário com relação às próprias expectativas, carreira, objetivos de vida? Dizer sim para todos os desafios externos é também dizer sim para o próprio processo evolutivo pessoal? A vida é feita de escolhas, e escolher é também abrir mão de alguma coisa para priorizar outra, mesmo que temporariamente. Quanto mais nos conhecemos – e nos permitimos – mais conscientes, coerentes e consistentes se mostram os caminhos a serem trilhados. E escolhas feitas a partir dessa perspectiva são muito inspiradoras!                                                                       

Silêncio. Um momento de autoconexão é também um momento de conexão com o outro. Goleman nos ensina sobre empatia: “ela é alimentada pelo autoconhecimento; quanto mais consciente estivermos acerca de nossas próprias emoções, mais facilmente poderemos entender o sentimento alheio.” O verdadeiro conteúdo de uma mensagem não está no que o outro nos diz, mas no como ele nos diz. Com isso, ele nos mostra que podemos desenvolver um “ouvido emocional”, que é essencial quando falamos do nosso momento de escuta como líderes.

Se estamos mais atentas às nossas necessidades e possibilidades, desenvolvemos gradativamente um olhar mais compassivo para nós, para os outros, para a vida. Aos poucos, vamos nos dando conta do quanto estamos interconectadas, e quanto as nossas ações impactam o nosso entorno e as pessoas com as quais interagimos. E quanto mais alinhadas, inteiras, conhecedoras de nós mesmas estivermos, mais poderemos contribuir para a formação de uma rede forte, comprometida e de apoio mútuo. Porque, como disse o Dalai Lama, “goste disso ou não, estamos todos conectados, e é impensável ser feliz completamente sozinho”.


Jana Libman

Graduada em Publicidade e Propaganda, com especializações nas áreas de Comunicação, Psicologia Positiva, Coaching e Gestão de RH. Líder Carioca na Prefeitura do Rio, integra a Rede República e o Programa Women’s Leadership Network da Universidade de Columbia

Paola Figueiredo

Antropóloga, mestre pela UFF. Gestora do Projeto Lidera Mulher e Vice Presidente do Instituto de Previdência de São Gonçalo, integra a Rede República, o Master em Liderança e Gestão Pública (MLG), Women Inside Trade (WIT) e o Programa Women’s Leadership Network da Universidade de Columbia

 


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