Coordenadora de Dados da República.org, Paula Frias analisa a segregação entre homens e mulheres nas áreas de atuação do setor público com base nos resultados do CPNU
Por Larissa Guimarães — Especial para a República.org
A primeira edição do Concurso Público Nacional Unificado (CPNU) evidenciou uma desigualdade persistente na ocupação de cargos públicos por homens e mulheres, sobretudo em áreas consideradas mais técnicas e de maior remuneração. A avaliação é de Paula Frias, coordenadora de Dados da República.org, organização que atua no fortalecimento do serviço público no Brasil.
“O cenário observado na primeira edição do CPNU evidencia a urgência de debatermos a segregação horizontal entre homens e mulheres no setor público e de pensarmos em estratégias concretas para transformar esse panorama”, afirma Frias.
A chamada “segregação horizontal” refere-se à distribuição desigual de homens e mulheres em diferentes áreas de atuação, mesmo quando os cargos ocupados têm níveis hierárquicos semelhantes. Segundo a especialista, essa separação não apenas reforça estereótipos de gênero, mas também amplia as disparidades salariais no serviço público.

Áreas sociais concentram presença feminina, mas pagam menos
Dados do CPNU, que foram analisados pela República.org, reforçam essa realidade. No bloco 2, de Tecnologia, Dados e Informação, apenas 8,4% das pessoas aprovadas foram mulheres. Já no bloco voltado a setores econômicos, a presença feminina foi de 25,7% — a segunda pior representação entre os blocos. No primeiro caso, as maiores vagas estavam concentradas no cargo de Analista em Tecnologia da Informação (ATI), com 300 vagas e remuneração inicial de R$ 11.150,80. No bloco econômico, o destaque foi o cargo de Analista de Comércio Exterior (ACE), com 50 vagas e salário inicial de R$ 20.924,80.
É urgente debatermos a segregação horizontal entre homens e mulheres no setor público.
Paula Frias, coordenadora de Dados da República.org
Por outro lado, o bloco de Educação, Saúde, Desenvolvimento Social e Direitos foi o único com maioria feminina: 60,3% dos aprovados eram mulheres. A maior oferta de vagas nesse grupo foi para o cargo de Analista de Políticas Sociais (ATPS), com 460 oportunidades e salário inicial de R$ 8.336,82 — podendo chegar a R$ 9.181,42.
Para Paula Frias, a reserva de vagas para mulheres prevista na segunda edição do CPNU é um passo importante, mas insuficiente se não vier acompanhada de mecanismos eficazes de acompanhamento. “A reserva pode contribuir para melhorar esse quadro, mas é fundamental ter um monitoramento dessas ingressantes, tendo em vista que a reserva de vagas será apenas em uma das fases e não entre os ingressantes”, ressalta.
Segundo a coordenadora, garantir o acesso é apenas parte da equação. É preciso assegurar também que mulheres permaneçam e avancem em áreas onde ainda são minoria, o que exige políticas de incentivo, formação e ambiente institucional livre de discriminação.