Gestores públicos relatam as práticas adotadas durante o isolamento social para capacitar colaboradores e garantir a qualidade no serviço prestado.

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

por Julia Sena

A pandemia de Covid-19 trouxe dificuldades para todas as esferas de trabalho. A suspensão de atividades presenciais foi adotada por diversas instituições como medida de segurança para preservar a saúde e a vida de seus colaboradores. De acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), em novembro de 2020 o Brasil tinha 7,3 milhões de trabalhadores exercendo suas atividades de maneira remota. A pesquisa também aponta que 2,85 milhões eram trabalhadores do setor público, distribuídos com maior percentual entre o Distrito Federal, Rio de Janeiro e São Paulo.

Em pouco tempo, gestores públicos de todo o país se viram na posição de repensar suas estratégias de trabalho e observar com mais cuidado o capital humano da instituição. As práticas de gestão de pessoas tornaram-se essenciais para o desenvolvimento do trabalho remoto e plena execução das atividades que antes eram realizadas presencialmente. Mas quais os métodos utilizados por gestores públicos para superar os desafios do isolamento social?

“A pandemia tornou vários processos que a administração pública sabia que eram necessários ganharem mais urgência”, afirma Bruno Schettini. Schettini é subsecretário na Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão do Rio de Janeiro (Seplag), órgão responsável por desenvolver carreiras e competências de gestores de forma continuada. Durante a pandemia, a secretaria desenvolveu uma plataforma de comunicação interna para que os profissionais possam solicitar diferentes serviços. Investimentos em ferramentas de capacitação à distância, motivação e marketing institucional voltado para ações internas também foram realizados pelo estado para garantir a qualidade no trabalho dos servidores.

Durante 15 meses a Seplag trabalhou na elaboração do Sistema Eletrônico de Informação – SEI RJ. O sistema, que deixou todo o estado 100% digital, terminou de ser implantado no final de março de 2020, momento em que a pandemia eclodiu no país. Processos como pagamentos, contratações de novos profissionais, promoções e reconhecimentos de direitos foram acelerados graças à tecnologia implementada. O subsecretário entende que existe uma oportunidade de mudar a forma como se faz recursos humanos no estado e o trabalho remoto contribuiu para isso. A mobilidade urbana deixou de ser um desgaste diário na vida de inúmeros profissionais que atuam no serviço público e moram distante do local de trabalho. “Hoje, temos servidores muito mais descansados e focados para participar das atividades”, garante. 

Para diminuir as dificuldades causadas pelo isolamento social, o avanço da digitalização de documentos e recebimento de informações em formato digital modernizou setores que funcionaram até agora à base de caneta e papel. Eliema Cardoso é gerente geral de recrutamento e seleção de servidores na Secretaria de Estado da Administração de Sergipe. A sua área de atuação migrou para o meio eletrônico para atender novos servidores que chegavam ao estado. “O que fizemos foi conduzir o processo o mais eletronicamente possível. Desde reuniões virtuais até contato com o candidato”, diz. Apesar da medida ter surgido como uma alternativa ao período de isolamento social, o processo deve se perpetuar dessa forma, o que diminui o tempo da tarefa e evita deslocamentos, antes obrigatórios.

Em momentos de crise, Gabriel Rodrigues acredita que regular os serviços e padronizar a forma de comunicação entre as pessoas é altamente estratégico para uma instituição. Ele é gerente de capacitação na Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais e já ajudou a desenvolver milhares de profissionais. Quando o trabalho remoto surgiu, o setor se empenhou em capacitar mais de 2.400 servidores para que aprendessem a usar uma plataforma específica para comunicação e videoconferência. “É importante colocar na cabeça das pessoas que as coisas mudaram e está tudo bem. O horário de trabalho não é o que importa mais, e sim trabalhar o resultado”, defende. O processo de capacitação da equipe e a padronização de aplicativos para se comunicar foi fundamental para criar um novo paradigma de trabalho na instituição.  

Sua equipe organiza ações e investe em programas de qualidade de vida no trabalho para toda a instituição. As ações vão desde práticas meditativas, debates sobre saúde mental, até informações sobre os benefícios de uma soneca depois do almoço. No último caso, o objetivo não é normalizar dormir durante o trabalho, mas debater a importância de colocar a saúde como prioridade. Rodrigues afirma que os resultados do trabalho remoto mostram melhoria em todas as áreas. “Para mim, as pessoas são o único investimento possível. O investimento massivo em pessoas muda o país, é uma revolução silenciosa.”

Os entrevistados atuam em diferentes setores de gestão de pessoas e participaram do curso online Gestão Estratégica de Recursos Humanos, realizado gratuitamente pela Hertie School, em parceria com a República.org. O objetivo é oferecer oportunidades de treinamento sob medida para líderes que formarão as equipes do setor público de amanhã no Brasil.