Nobel de literatura destacou, em evento organizado pela Folha de S.Paulo e a República.org, atuação na educação pública francesa

Publicado em 30 de novembro de 2022

Os autores Annie Ernaux e Geovani Martins durante mesa na Casa Folha, promovida em parceria com a Casa República.org, na Flip. Foto: Luciana Serra.

A escritora francesa Annie Ernaux, prêmio Nobel de literatura em 2022, fez um relato sobre sua trajetória como professora de escola pública ao responder a uma pergunta de Vanessa Campagnac, gerente de Dados e Comunicação da República.org, na Flip (Feira Literária Internacional de Paraty). “No início de minha carreira, trabalhei numa escola técnica onde eu tinha alunos que eram muito parecidos comigo, que também vinham de um meio popular”, disse a autora.

Ernaux esteve presente na Casa Folha a convite do jornal Folha de S.Paulo e da República.org, no último dia da Flip, em 27 de novembro.

A questão de Campagnac — sobre a influência do serviço público e da escola pública na trajetória dos autores presentes — foi direcionada também a Geovani Martins, que dividiu o palco do evento com Ernaux. Ele, que é morador da Rocinha e se tornou uma jovem referência da literatura brasileira pelo livro de contos O sol na cabeça (finalista do Prêmio Jabuti), frequentou a rede pública de ensino até a oitava série e descreveu essa vivência como fundamental em sua formação.

Debate entre Ernaux e Martins lotou Casa Folha no último domingo (27). Foto: Luciana Serra.

A vida no serviço público foi determinante na obra de Ernaux. Filha de pais operários, ela se tornou conhecida por uma literatura marcada por memórias e relatos autobiográficos, em que muitas vezes expõe seus constrangimentos e estranhamentos diante de uma sociedade excludente — ponto em que encontra aproximação com Martins.

“Um episódio foi particularmente muito marcante quando eu estudava numa escola pública da Gávea e um professor de geografia, tentando controlar a bagunça dos alunos em sala, falou que, se não estudássemos, iríamos nos tornar empregados dos alunos da escola privada vizinha, uma das mais caras do Brasil. Segundo o professor, isso seria cumprir o destino que haviam traçado para nós”, relatou o brasileiro. “Eu decidi estudar de outras formas, deixei a escola, mas não faço apologia da minha decisão”, concluiu.

Ernaux, após ouvir o relato de Geovani, falou sobre o papel da escola pública francesa em formar novas gerações de trabalhadores de baixa qualificação. “Foi um choque para mim perceber o quanto os meus alunos estavam indo num percurso que os direcionava para atividades e profissões que eram desvalorizadas. Da mesma forma, eu percebia esse filtro de separação social que já estava presente na escola e nas formações que eram oferecidas”, afirmou.

Do lado de fora da Casa Folha, em Paraty (RJ), público também acompanha o evento realizado pela Casa Folha e a Casa República.org. Foto: Luciana Serra.

Doutora em Ciências Políticas, Campagnac iniciou sua pergunta aos dois escritores descrevendo o papel da República.org como instituição que trabalha pelo reconhecimento dos servidores públicos e pela modernização do Estado brasileiro. Durante a Flip, o instituto manteve a Casa República.org, com intensa programação que destacou a relevância de escritores-servidores na literatura brasileira.

Aberta entre os dias 24 e 27 de novembro, a Casa República.org na Flip teve curadoria da jornalista Daniela Pinheiro e promoveu, além de uma série de encontros temáticos, o pré-lançamento de duas publicações. 

Editado pela República.org junto à Cobogó, o livro A construção de um Estado para o século XXI, do economista Francisco Gaetani e do cientista político Miguel Lago, foi tema de uma mesa de pré-lançamento, mediada por Alessandra Orofino (diretora executiva da ONG Nossas e conselheira da República.org). 

Com uma publicação inédita que está sendo editada pela República.org e a Companhia das Letras, Plínio Fraga (professor de reportagem na UFRJ) participou da mesa Estado crítico, Estado criativo ao lado de Gaetani e da jornalista Larissa Guimarães.